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24/10/2008
SINAIS
Se você ainda tem alguma dúvida de que o mundo está acabando, comece a prestar atenção nos sinais. Esses sinais, diferentemente do que lhe prometeram, não chegam em formato de bolas de fogo descendo dos céus, nem como ataque de criaturas com sete cabeças. Isso só funciona nos sermões e nos cinemas. O apocalipse, meu amigo, é muito mais sutil.
Senão vejamos: quando um sistema como o capitalismo resolve entrar num processo autofágico, quebrando inclusive os seus maiores defensores, quando um ator brasileiro reclama que tem muita mulher pelada no cinema ou quando a seleção brasileira joga em casa contra Argentina, Bolívia e Colômbia, e depois de 270 minutos de futebol não consegue marcar um mísero gol, é porque o juízo final já entrou na fila de embarque.
As coisas ficam ainda piores quando os sinais saem de um ponto intangível no horizonte (sistemas financeiros, atrizes peladas e seleção brasileira) para as nossas vidas privadas. Mais ou menos como aconteceu com um amigo meu, há alguns dias atrás. Ao sair de uma boate ou um bar ou um vespeiro (ele não lembra ao certo), resolveu dar uma carona para uma dessas meninas descoladinhas de dentes brancos e hálito refrescante.
Ele começava a se empolgar com a carona, quando lá pelas tantas ela se interessou por uma música que tocava no som do carro dele. E o que correu a seguir foi o diálogo:
- Legal essa música, hein? Quem é que tá tocando?
- Beatles – Ele respondeu.
- Beatles?
- É. Não conhece?
- Assim... de nome eu não me lembro...
Ele deu uma freada brusca. Abriu a porta do carro e mandou ela descer, sem o menor remorso. Eram duas da manhã, mas quem se importa? É o fim dos tempos, e nessas horas não há o mínimo espaço para gestos de misericórdia. Depois do entrevero ela foi pra casa de táxi, ele foi pra casa de mau-humor e a Terra, aparentemente, continua girando em torno do sol normalmente.
Ainda assim, não deixe de prestar atenção aos sinais.
Escrito por Rafael Klein em 24/10/2008
15/10/2008
NEGÓCIO DE RISCO
O Nestor era um daqueles conquistadores convictos. Daqueles capazes de se envolver com qualquer mulher, seja ela qual for: mulatas, brancas, novas, velhas, belas ou quarta-feira de cinzas. Não tinha tempo ruim com o Nestor. Bastava um belo par de pernas ou, na maioria das vezes, apenas um par de pernas para despertar o Don Juan que habitava o seu corpo.
Nestor gostava desse negócio de ser conquistador. Não tinha um único dia que ele não ficasse sem se gabar dos seus feitos e de relatar minuciosamente aos seus amigos todas as visitas que os seus lençóis andavam recebendo.
Naquela noite quente de outubro, o Nestor conheceu a Simone, uma bela mestiça nascida na fronteira entre o Brasil e a Bolívia. Simone tinha todos os predicados que fazem os homens perderem a compostura: seios fartos, bunda arredondada, coxas grossas e um sorriso de siga-me-agora-mesmo. Para o Nestor, aquela mulher não era um simples pedaço de mau caminho. Era um latifúndio inteiro.
Bolero vai, bebida vem, e Nestor está aos beijos com Simone numa mesa nos cantos de um bar. Nestor, que gosta de usar palavras incomuns com as mulheres a fim de impressioná-las, convidou Simone para a sua alcova:
- E então, minha pequena cabocla. Gostaria de ir até Wall Street conhecer o meu pregão?
Simone, que além de bonita era extremamente espirituosa, piscou o olho para o Nestor e sorriu. Nestor levantou, pendurou com discrição a conta com o dono do bar, olhou marotamente para os amigos e seguiu a formosa dama porta afora.
Corta para os lençóis do Nestor. Ele cabisbaixo, sem o mínimo sinal daquele sorriso galante, procurava uma explicação para aquela baixa inesperada das suas ações. Simone tentava injetar um pouco de liquidez no produto interno bruto dele, mas nada melhorava o otimismo do seu boêmio investidor. Nestor tentou contornar a situação, através de algo infalível com as mulheres: a especulação da sua oratória.
- Morena, não existem indicadores que expliquem essa descapitalização. Acho que deu um circuit braker, devido ao pânico generalizado. Mas ó, fique tranqüila que logo, logo, eu recupero as perdas e realizo os lucros.
Para espanto do Nestor, a Simone emendou logo em seguida:
- Você que pensa! Eu devia saber que homem do tipo sub-prime só poderia fazer minha noite terminar numa grande depressão. Me dê minhas roupas aí que eu vou atrás de um homem renda fixa, que é bem mais seguro.
Da janela da sua casa, Nestor viu a voluptuosa Simone sumindo entre as sombras, após cruzar o mercado.
- Maldito capitalismo. – Foram as últimas palavras que ele balbuciou antes de dormir.
Escrito por Rafael Klein em 15/10/2008
07/10/2008
CHAMADA
Didi Brother Manchinha Renê Tudo A Ver Vilson do Quinta Point Neguinha Barrinha Gegê Lindão Capenga Jorge Fumaça Emanoel dos Aposentados Ligeirinho dos Remédios Carlinhos do Cabrito Marivaldo da Oficina Orea Antonio Manthena Charuto Lambarí Zé do Saco Gê Gê Só Alegria Na Fé Chico Betao Villas Boas Cicero (O Armador) Moises de Ogonorante Almiro O Amigo do Povo Genny Santos Educador de Buzú Rui da Cuica Bigode Ted do Baba Nego Fuá Rei Momo Gordo Marcelo Neon Binho de Ganso Sangue Novo Porém Roque Palito Cigana Bomba Jorge Diabo Antonio do Povo Dica Doris com Você para Vencer Verarte Tia India Vem Ai Caroço Palhinha Marrom Maneiro Roque Bocão Papito Beijoca do Bahia Lula Gás João Bonito Marinez Ex Banda Reflexus Bandola da Rifa Clodoaldo O Amigo de Todos Caçarola Vanda Amiga do Peito Ninha Reginaldo do Carnaval Caldeirart Bira do Jegue Jp Vatapá Silvis Mensagens Naldinho Roma Jairo Babão Antonio Carlos Nenem Raildo Sapateiro Prof Alô Alô Jr O Poeta da Paz Batoré Geraldo Papá Secretário Parlamentar Tc Mustafa Kojack Paulo Vinagre Petronilio Biu Cajueiro Sequela Bombeiro Carlinhos Zoião Severiano Papai Noel Luis Categoria Jairo Society Tarsílio, Tatau Pequeno Nery Wadinho da Bahia Barbeirinho Mc Falcão Dedé O Barbeiro Zé da Tribuna Nivaldo - Prá Lá Que Vai Bebeto Piatã Alex Mini D´Lua, de Lua, da Lua Hulk Salvador Nó Cego Letys da Bahia Canário Mestre Marinheiro Verde Graça
A lista aí em cima contem o nome de 100 candidatos a Vereador em Salvador. (A lista seria muito maior, mas para economizar o seu tempo ficaram de fora outras aberrações, permanecendo as mais emblemáticas). Foi com nomes assim que estes cidadãos tentaram um lugar na câmara municipal, onde supostamente se trabalha para fazer algo sério: fiscalizar o futuro prefeito e criar projetos de lei para o desenvolvimento da cidade.
Agora olhe a lista com calma e entenda porque o Brasil é o país que nunca irá pra frente.
PS – Candidatos com nomes absurdos não são exclusividade de Salvador. Esta maldição está disseminada do Oiapoque ao Chuí. Infelizmente.
Escrito por Rafael Klein em 07/10/2008
26/09/2008
O DIA EM QUE TOM ZÉ FICOU PSICODÉLICO
Romeiros, aberturas e monetos. Seria “monetos” um neologismo? Sussurre-me, Aurélio. Fale-me sobre essas, assim como tantas outras palavras que surgem ao léu e vagueiam rasteiramente atrás da minha fronte. Qual o sentido de todas essas coisas? E qual o sentido do arco-íris? Norte-sul ou leste oeste? Queria deixar claro que arco-íris não são mágicos, nem fazem parte de componentes importados de Taiwan. É uma celeuma essa coisa de arco-íris. Devia vir junto com os livros de biologia que explicam o nascimento das mitocôndrias e respiração ofegante dos complexos de Golgi. Mas não se explicam, assim como as palavras, os romeiros e as provas de biologia. No fim, sobram-se os mistérios e as suas insolvências. Exatamente como os monetos, que não encontraram, ainda, a sua função semântica no mundo.
Escrito por Rafael Klein em 26/09/2008
15/09/2008
BATISMOS DE FORNO
Um dia, quando virar gente grande, quero me tornar um Gourmet. Não sei se existe uma faculdade ou um MBA (existem tantos!) que possa entregar na minha casa um diploma de Bacharel em Degustação ou se essa é uma daquelas coisas que você alcança graças a um talento natural, um amigo na imprensa e dinheiro suficiente para visitar um restaurante diferente por dia.
Enfim, não tenho nada disso, mas o que é um homem senão um monte de poeira estelar recheada de sonhos? Sendo assim, vou tentando aprender no estômago e na raça a conhecer um pouco mais dessa arte, esperando com o babador à postos, o dia em que o destino resolver me servir.
Como todo autodidata que se preze, desenvolvi a minha primeira tese: tão importante quanto a apresentação e o sabor do prato é o seu nome. Pense bem: você nunca entraria no Guia Michelin com um prato chamado Macarronada ou com o velho e bom Feijão com Arroz. Entraria, se fosse uma Macarronada à Moulin Rouge ou um Feijão Marroquino com Arroz de Graviola. É como você ter que escolher entre uma mulher chamada Dodislene e outra chamada Luana. É fato, temperado, de que a segunda já sai na frente.
Vai ver por isso, a cozinha francesa leve vantagem em relação à todas as outras, mesmo servindo porções nanoscópicas de qualquer coisa que possa se levar à boca. É assim: você está comendo uma galinha assada com legumes, mas no cardápio está escrito Coq au Vieux Ratatoulie. Convenhamos, o sabor é outro.
É por isso também que a comida anglo-saxônica não chega a ser classificada como comida. Os franceses costumam dizer que os ingleses adoram ir pra guerra, porque não suportam a sua cozinha, mas o problema deles não é o Sazon, é a velha mania dos bretões em serem práticos. Em qualquer restaurante inglês, bife mal-passado recebe o nome de bife mal-passado. Nunca isso vai ser páreo para um Rôti Redecouvert au Poivre, seja lá o que isso queira dizer.
E tese, seja ela qual for, não é nada se não for comprovada. Para mostrar que o nome de um prato é fundamental, criei uma sobremesa que não tem nada demais, mas já nasceu com nome e sobrenome: Mont Black. Resultado: todas as duas pessoas que provaram ficaram deliciadas.
Podem anotar aí: haverá de chegar o dia em que eu, um renomado Gourmet, irei ao D.O.M., mandarei chamar o Alex Atala na minha mesa e, tapinha nas costas, direi a ele com aquele ar de quem acabou de descobrir um grande segredo:
- Belo nome, Alex. Belo nome.
Escrito por Rafael Klein em 15/09/2008
06/09/2008
MILLÔRANDO (Ou uma tentativa tosca de aprofundar o pensamento deste genial escritor)
Pré. S → A primeira frase é do Millôr, o resto é consequência…
IMPACIÊNCIA
Impaciência, teu nome é sinal de tráfego.
A sinaleira, o semáforo, ou nome que você quiser dar, é a consagração definitiva da cromoterapia sobre o nosso humor, só que às avessas. O vermelho, o amarelo e o verde vão além de uma simples combinação. Eles formam um verdadeiro complô. Um complô contra a lógica, contra a paciência e contra aquela reunião marcada para logo depois do almoço.
Aliás, os sinais são tão poderosos que criaram uma medida de tempo que só pode ser calculada quando você está diante deles: o culionésimo de segundo, que é aquela micro-fração de tempo que vai do surgimento da luz verde até o barulho da buzina vinda do carro de trás. E se você vive em qualquer cidade grande não tente se rebelar, porque diante deles, os sinais de tráfego, você é uma imensa minoria. Agora atenção: pare de reclamar e siga a vida cheio dessa resignação
Escrito por Rafael Klein em 06/09/2008
27/08/2008
Olim - Piadas
Admito que o fim dos jogos olímpicos me trouxe um certo alívio. Não sei bem qual é a razão desse sentimento, mas desconfio que seja porque agora eu já possa dormir. Enfim, depois de 17 madrugadas, termina “o maior espetáculo da terra”, “o evento que une os povos”, “o sonho dourado das nações” e todas as outras expressões que tentem dar uma certa nobreza a competições como pingue-pongue e luta greco-romana.
Certo mesmo é o de sempre: o Brasil conquistou uma dúzia de medalhas e os dirigentes irão aos microfones para dizer que estamos no caminho correto para nos tornarmos uma potência olímpica. Mais ou menos o mesmo discurso feito por Pero Vaz de Caminha há uns 508 anos atrás.
Ao menos conseguimos extrair 10 lições importantes dos jogos de Pequim:
1 - Olimpíadas estão relacionadas com ideais, dedicação e superação. Enfim, sentimentos nobres que não podem ser vencidas por algo tão vagabundo quanto a nossa seleção masculina de futebol.
2 - O COB devia parar de inscrever atletas nas provas de tiro ao alvo. A quantidade de balas perdidas divulgadas todos os dias por aqui são provas irrefutáveis de que o brasileiro não sabe atirar.
3 - Esses foram os jogos olímpicos das mães. Virava e mexia tinha a mãe de um atleta na TV torcendo pelos filhos. Mas por que diabos nessas horas ninguém mostra mães mais famosas? Como as dos juízes, por exemplo.
4 - O problema com a vara da nossa saltadora nos jogos ajuda a derrubar de vez um mito: em se tratando de varas, tamanho é documento, sim senhor.
5 - Os Estados Unidos já sabem como bater a China no quadro de medalhas das próximas olimpíadas: vão inscrever o Phelps no atletismo, no tênis de mesa e na ginástica artística.
6 - O Brasil já sabe como bater a Bielo-Rússia no quadro de medalhas das próximas olimpíadas: vamos solicitar a criação do vôlei aquático, do vôlei em distância e do vôlei sincronizado.
7 - O mundo mudou mesmo. A Jamaica, por exemplo, não é mais o reduto de negões muito doidos. Agora por lá é fácil encontrar velocistas à rodo. Velocistas negões muito doidos, que fique bem claro.
8 - O SporTV tinha quatro canais simultâneos, mostrando a programação dos jogos. Numa dessas madrugadas, eu conferi, estava passando as finais do Badminton, do Softball, da Canoagem e do Pentatlo Moderno, um em cada canal. O que me fez refletir sobre a falta que fazem o Par ou Ímpar, a Amarelinha, o Esconde-Esconde e o Palitinho na programação olímpica.
9 - A paulista Maurren Maggi ganhou o ouro por uma diferença de apenas 1 cm. Ou seja, tivesse ela nascido na Bahia, no Rio ou em qualquer outro lugar onde reina a genética das popozudas, teria ficado só com a prata.
10 – Não tem pra ninguém. Na modalidade Choro Olímpico, somos imbatíveis.
Escrito por Rafael Klein em 27/08/2008
17/08/2008
DIET SHAKESPEARE
Da série: Pode a Inglaterra inspirar um poema?
The sun was going down on the hill The night has droped like a flash She leaves me to go back to Brazil My heart has broken on that crash
Anyway, I can’t stay here making a complain I will turn around and going to fight I know how to stop my huge pain I have to go to the pub and drink a monstruous pint
Escrito por Rafael Klein em 17/08/2008
15/07/2008
CERVEJA NOS OLHOS DOS OUTROS É REFRESCOOs ingleses foram responsáveis pela invenção de muitos dos esportes que conhecemos. Em alguns casos, o esporte até já existia, mas logo eles tratavam de colocar uma regra em cima e pedir pra si a paternidade dos jogos. De um jeito ou de outro, os ingleses acabaram aclamados como inventores do automobilismo, do tênis, do futebol, do golfe, do pólo e de esportes bem esquisitos como críquete, badmington (é assim que se escreve?) e rugby. A origem de tanta inventividade não é a conhecida criatividade britânica, nem tampouco os delírios causados por longos happy-hours nos pubs ingleses. Dizem os próprios habitantes da Inglaterra, que a coisa funcionava assim: eles inventavam um esporte para serem os melhores, até que um dia outra nação acabava os superando. Então eles partiam para inventar um outro esporte, dominar as ações, serem desbancados e por aí vai. Quem hoje está passando por algo semelhante são os Estados Unidos - que no fundo, no fundo, também podem ser considerados um esporte inventado pelos ingleses – com relação à sua maior invenção: o capitalismo moderno. Graças às bolsas de valores e a influência que elas exercem sobre os mercados, os americanos se tornaram campeões mundiais de riquezas. O jogo das ações se transformaram numa forma intangível e simples de dominar o mundo. O problema é que todo mundo aprende a jogar, e mais cedo ou mais tarde, os inventores acabam perdendo a sua supremacia. A compra da americana Anheuser-Busch (é assim que se escreve?) pela belgo-brasileira InBev, é, sem dúvidas, a maior derrota dos yankees nesse jogo. Numa tradução de botequim: a Brahma está comprando a Budweiser. E isso afeta não só meia dúzia de acionistas que vão ganhar uma quantidade absurda de dinheiro. A “Bud” é um símbolo americano, a cerveja favorita deles, um dos maiores exemplos da superioridade dos EUA ou nas palavras dos próprios: “It more than just like a beer”. O que os belgo-brasileiros estão comprando é o orgulho americano. E isso é ganhar de goleada, jogando dentro da casa deles. Não é por acaso que há uma comoção nacional em relação a essa notícia. Foram criados sites como Savebudweiser.com e o Saveab.com, onde os cidadão americanos protestam contra a venda da cervejaria e questionam as regras desse estranho e cruel jogo chamado bolsa de valores. Resta saber se eles vão fazer com esse esporte o que os ingleses faziam com os deles. Admitir que já não são os melhores no jogo do capitalismo e criar um novo, com novas regras, novos materiais e novas formas de se vencer. Daqui da arquibancada a torcida é para que, se isso acontecer, seja criado um esporte mais justo com os times menores e mais fracos.
Escrito por Rafael Klein em 15/07/2008
27/06/2008
TRÊS MARIAS
Três Marias. As três, ali, sentadas à espera do convite que insistia em não acontecer. Sentadas e iluminadas pela providencial meia-penumbra que esconde a maioria dos defeitos e ameniza os impossíveis. Bendita penumbra. Era assim nas festas de antigamente, onde o convite para a dança era o ápice da noite. Mais importante do que as roupas, do que as músicas e do que as conseqüências. O convite para dança era o nirvana silencioso daquelas jovens donzelas.
E ali estavam, sentadas, as três Marias. Maria Flora, com seu corpo alto e esguio, seu rosto angulado e seu nariz tortuoso. Maria Clara, maquiada em excesso, com seu decote exibindo a sua porção mais generosa ao mesmo tempo em que escondia outras generosidades não tão interessantes. Na ponta, e escondida por um pedaço maior da sombra, a pequena Maria Paula, com seus olhos brilhantes e seu sorriso tímido.
Àquela altura, tudo acontecia em um ritmo espaçado. Os minutos, o vai e vem das pessoas e os olhares masculinos. Já havia chegado a hora em que a angústia começava a comprimir os delicados ventres femininos, quando um cavalheiro de calça riscada e chapéu Panamá estendeu a mão áspera em direção à Maria Flora. E ela levantou-se elegantemente, soltando sorrateiramente o seu longo vestido para esconder as pernas finas, ao tempo em que fazia uma força descomunal para mancar menos do que o de costume.
Uma longa pausa. O suor expelido pelo nervosismo ameaçava a espessa maquiagem de Maria Clara. Maria Paula e a sua timidez não abandonavam o ponto negro de luz que iluminava o canto onde estava sentada. Um homem de belas feições e sapatos novos sorriu garbosamente, estendendo a mão em direção à Maria Clara. Ela levantou rápido o suficiente para que o seu decote tomasse todo o campo de visão do seu proponente, escondendo o seu nervosismo, a sua ansiedade e a sua cintura.
A festa termina. E, ali, sentada no seu canto estava Maria Paula. Sem olhares, sem parceiros, sem o tão esperado convite. Logo ela, a mais bela, a mais doce e a mais singela, foi indelicadamente renegada pelo destino. A festa acabou, e ela, logo ela, não recebeu o convite.
Maldita penumbra.
Escrito por Rafael Klein em 27/06/2008

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